O trabalho está a deixar muitos de nós doentes e a prejudicar-nos no nosso dia-a-dia.“Também é natural, tendo em conta que o trabalho se tem tornado desumano”, diz o especialista em comportamento organizacional Jeffrey Pfeffer.

A toxicidade do trabalho não reside na sua natureza e sim no modo unilateral de implementação de medidas que visam o bem-estar financeiro da organização.

A psicóloga social Fátima Lobo, professora da Universidade Católica de Braga na área da Psicologia do Trabalho e das Organizações refere que a avaliação de desempenho transformou-se no pretenso remédio para todos os males das empresas, “quando sabemos que não o é e muito menos para todos os males”.

Ambos concordam que algum sofrimento no trabalho faz parte, na medida em que significa envolvimento do trabalhador, mas esse é um sofrimento diferente do provocado pelas condições de injustiça que conduzem à depressão e ao desespero.

O professor de Stanford Jeffrey Pfeffer avisa que: “Existem provas de que as longas jornadas, demissões e falta de planos de saúde geram enorme insegurança económica, conflitos familiares e doenças”. Muito poucas se preocupam em avaliar como maus ambientes causam estragos profundos na saúde – não só em quem adoece como nas contas de quem paga os cuidados, incluindo os próprios empregadores.

O psicólogo clínico Vítor Rodrigues, explica que: “Às tantas, as pessoas entram em depressão porque dão tudo, privam-se da família, do que lhes é mais importante…”

Já para não falar nos vários estudos da Escola de Saúde Pública de Harvard que indicam que, em casos de stress intenso e prolongado, a subida do cortisol aumenta a fome e os desejos de alimentos ricos em açúcares e gorduras saturadas, que dão resposta emocional à tensão mas fazem mal a tudo o resto. Obesidade, depressão, perda de memória, AVC, doenças cardiovasculares, falta de sono, queda de cabelo e outros distúrbios fazem do stress o principal responsável por doença laboral.

“Estamos sistematicamente online, trabalhamos longas horas, sofremos uma enorme pressão para atingir objetivos, viajamos com frequência. Isto tem um preço para a organização e para a pessoa”, afirma José Soares, professor de fisiologia na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Entre cansaço extremo, reuniões que só nos fazem perder tempo e quase dois turnos laborais por dia, importa reconhecer que “o modo como se está a trabalhar é disfuncional”.

E isto quando fazer com que nos sobrem horas para ter vida pessoal implica respeitá-la tanto ou mais do que à carreira, avisa. “Pressionamo-nos a fazer mais, mais depressa, a achar que nunca chega, mas não podemos viver obcecados pelo trabalho.” O tal medo impeditivo tem de dar lugar à certeza de que fizemos, com brio, o que era razoável, e mais não podemos, diz.

Em última análise, cabe a cada um recuperar o controlo dos seus dias. É uma questão de começar a gerir melhor o trabalho.

Créditos: Ana Pago

Partilha