A raspadinha não deveria ser permitida. A minha avó Joaquina tinha um anel que não valia nada, mas era a única coisa que parecia valer alguma coisa. Houve alturas dramáticas em que levou o anel e o pôs no prego. O senhor Fernando era um homem bom. Sabia que não valia nada, que as pedras eram falsas (o que a avó desconhecia), mas dava-lhe sempre cinco contos que ela devolvia assim que recebia do patrão que lhe pagava por cada soutien que fizesse na sua máquina de costurar Oliva.

Naqueles anos de chumbo (em que nada de substancial me faltou) não existia a raspadinha. Existia o totobola que era jogo de homens e a lotaria que era demasiado cara. A avó não tinha vícios, gostava de gelados, mas nunca os comia… bem, um dia engolimos uma perna de pau os dois, em segredo.

Lembro-me da avó Joaquina quando vejo filas de velhotes e velhotas (e não só) a comprar raspadinhas atrás de raspadinhas, agarrados à raspadinha, dependentes de raspar sofregamente para ver se conseguem levar dinheiro para casa porque, ao contrário da Joaquina, não têm um anel com uma pedra nem conhecem um senhor bondoso numa casa de penhores.

Vejo numa loja no Lumiar pessoas em fila à porta, pessoas que esperam que a loja abra, pessoas que pedem por favor que o senhor lhes venda mais uma antes de fechar. Vejo uma velhota que pede raspadinha fiada. Outra que compra a raspadinha do amor, o 100 X, a raspadinha VIP e o Mega Pé de Meia e sai disparada para se esconder num recanto a raspar. Vi uma senhora a chorar por ter perdido o dinheiro que ganhara uns minutos antes, não tinha mais para jogar.

A raspadinha é o jogo dos pobres. E vicia tanto como os outros. O jogo que a Santa Casa da Misericórdia inventou para os pobres gastarem o pouco dinheiro que têm.

A Santa Casa investe muito dinheiro em obras sociais. É um braço fundamental do ministério da Segurança Social. Acompanha menores, promove voluntariado, tem residências de apoio para doentes terminais, seropositivos, toxicodependentes. E os jogos são a sua principal receita, muitos milhões de euros por dia que são investidos no Bem.

Mas fica um sabor amargo. Temos um mundo construído em cima da corrupção moral, a pior de todas as formas de corrupção. Precisamos do tráfico de droga, do tráfico de armas, do tráfico de seres humanos. Precisamos? Leu bem, precisamos sim. Se esse dinheiro, o dinheiro proveniente das lavagens, fosse retirado do sistema financeiro o mundo colapsaria como o conhecemos. Disparariam as falências, os despedimentos, a inflação, as guerras e o medo.

Com os jogos é a mesma coisa, o mesmo princípio. A Santa Casa ajuda muitos, mas coloca muitos numa situação de dependência absoluta. Ainda mais miseráveis do que eram antes. Quando vejo velhotes muito pobres rasparem num papelinho ao mesmo tempo que rezam para que possa sair alguma coisa, não consigo ter complacência. É uma imoralidade. A raspadinha deveria acabar, é criminosa porque mexe com pessoas sem rede.

Créditos: Comunidade, Cultura e Arte (Luís Osório)