“Ninguém da minha família foi ao meu casamento“, disse Fernanda Mesquita que descobriu na adolescência que gostava de mulheres, mas nunca teve o apoio da família.

Ao conhecer Lorrany Figueiredo, que já era mãe de trigémeos frutos de inseminação artificial, a auxiliar administrativa encontrou o amor e o acolhimento familiar que sempre sonhou. Hoje aos 25 anos, recém-casada, ela conta sua história à Revista Marie Claire: “Sempre gostei de mulheres mais velhas, mais experientes, destemidas, assumidas. Aquelas que pudessem fazer por mim o que ninguém mais faria. Talvez fosse para me encorajar a me assumir completamente. Mesmo eu nunca tendo falado diretamente para a minha família, todos sabiam.”

“Enquanto meus irmãos sempre puderam apresentar seus amores para a família e se reunir no fim do ano, eu nunca pude levar nenhuma namorada em casa. “Por conta de toda essa carência familiar, me entregava de corpo e alma nas minhas relações. Achava que a qualquer momento eu teria aquele amor de ‘contos de fadas’. Sujeitei-me diversas vezes em situações inaceitáveis.”

“No dia 17 de janeiro de 2019 minha vida mudou completamente. Conheci Lorrany, o amor da minha vida, através do seu canal de YouTube, o Canal da Low

“Aceitei o desafio e fui sem medo de ser feliz. Assumi o risco de viver com alguém que mal conhecia e que já era mãe de trigémeos. Quando a conheci, os bebés tinham dois anos. Hoje estão com cinco anos e sou referência quase que integral de mãe na vida deles. Eles me chamam de ‘mãe’. Respeito e acho linda a história que a Lorrany criou com a Lidiane.”

“No dia 17 de abril de 2021, após dois anos e dois meses juntas, resolvemos oficializar a nossa união. Casamos como num conto de fadas com duas rainhas. Convidamos somente as nossas famílias e os mais íntimos. Convidei a minha mãe, o meu pai, irmãos, avó, sobrinha, primos e tios. Mas, para a minha total surpresa, tristeza e decepção, ninguém foi. Eles não me deram a menor satisfação. Dias antes, pedi muito para o meu pai biológico entrar comigo na igreja e me conduzir até a minha esposa. Ele nunca me respondeu quando eu falava sobre o casamento. Não tinha ninguém da minha família para me levar até o altar, nem para ter como recordações no álbum de fotos.’

“Todos disseram que não daria para ir. Ouvi da minha mãe: ‘Parabéns, filha, mas não irei.’ Acho que os outros nem se lembravam que seria o meu casamento naquele dia, também nem se deram ao trabalho de me ligar. O meu mundo desabou ali.”

“Senti-me desamparada e sozinha. Foi o dia mais feliz da minha vida e, ao mesmo tempo, o mais triste e decepcionante. Fui consolada pela minha sogra, que me abraçou e chorou junto. Jamais me esquecerei disso.”

“Sofrer homofobia dentro da própria família é muito triste. Não há motivos para tanto desamor. Sempre fui educada com todos, honesta, trabalhadora, amiga, amorosa e carinhosa com todos para ser tão rejeitada assim. Tenho pai, tenho mãe, irmãos, avó, tios e primos e ninguém compareceu ao meu casamento.”

“O que mais aprendi desta lição é que não dependemos de ninguém para sermos felizes, não morreremos por falta de amor, e que nem toda a ausência familiar te fará ser uma pessoa má. Tudo isso só me fortalece como mulher, me faz dar valor aos que se importam comigo de verdade. Também me faz ter mais sabedoria para lidar com o mundo, porque ele ainda é muito homofóbico e preconceituoso.”